Autor: Carlos Santiago
Gabriela Sou da Paz
Diga não à impunidade
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Pedro Lucas Campos Moraes (Trânsito)



 


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Aviso O Movimento Gabriela Sou da Paz não se responsabiliza pela exatidão e veracidade das informações contribuidas voluntariamente abaixo.


Data do Ocorrido: 17/12/2010

Localização: Zona Rural de Abadias (GO)

Data de Nascimento: 19/08/2007 (3 anos)

Data de Falecimento: 17/12/2010

Sexo: Masculino Masculino
 

João Marcos Campos Moraes foi um pequeno vitorioso. Guiado pelos cuidados dos pais, aprendeu a ler aos 7 anos com apenas 60% da visão. Um mérito para quem nasceu com catarata no olho esquerdo. Aos 28 dias de vida, foi operado, passou a usar óculos aos seis meses, dilatou as pupilas todos os dias durante o primeiro ano de sua vida — isso arde — e usou um tampão no olho bom para estimular o que não enxergava. Frequentou regularmente o psicólogo, o ortoptista (espécie de fisioterapeuta ocular), o oftalmo, o neurologista. O esforço fez regredir uma doença que ofusca as cores, embaça as pessoas, torce as letras. João Marcos teria alta quando completasse oito anos. Mas morreu antes, em um acidente de carro aos 7 anos, 10 meses e 21 dias.

A mesma tragédia que tirou a vida de João interrompeu a de seu irmão mais novo, Pedro Lucas Campos Moraes, que completaria 4 anos em 19 de agosto. Na hora do desastre, os dois comiam pastel, tomavam suco de uva e assistiam a Nem que a vaca tussa, animação que conta a história de uma fazenda chamada Caminho do Paraíso. Acompanhados dos pais, com a perspectiva de chegar à casa dos avós maternos, os pequenos viajavam tranquilos. Uma ultrapassagem arriscada e proibida na BR-060, km 179, zona rural de Abadia de Goiás, espatifou o carro da família Campos Moraes. Tirou a vida das duas crianças, feriu gravemente Marcos Campos Moraes, 42 anos, e Vyviane Marques Arantes Campos Moraes, 35, e dilacerou a alma do casal.

Sete meses após o acidente, ocorrido em 17 de dezembro de 2010, os dois se esforçam para recuperar a condição física e lutam para dar sentido aos dias e dormir à noite. Ela é supervisora pedagógica do Centro de Ensino Fundamental da 104 Norte. Depois do acidente, ficou afastada do serviço. Teve o pulmão operado duas vezes. Quebrou o pé e rompeu o tendão do braço direito. Mesmo assim, se apresentou voluntariamente à escola. “Receber o beijo e o abraço dos meus alunos me mantém viva.” Marcos é gerente do Banco do Brasil, onde trabalha há 28 anos. Ele também voltou para a função. O casal mora na 304 Norte, de onde, da janela, vê a escola que apresentou João às letras, aos fonemas, às primeiras palavras.

Voltar a ter uma vida normal não é o único drama do casal. Os dois lutam para fazer justiça em memória dos filhos. É nesse ponto que uma ferida ainda aberta, capaz de levar uma vida inteira e não sarar, foi remexida com as mãos pesadas da negligência. Marcos e Vyviane descobriram que, até junho, seis meses após o acidente, não havia inquérito para apurar a morte de João e Pedro, embora laudo da Polícia Rodoviária Federal tenha descrito a ocorrência como uma colisão provocada por imprudência e desrespeito às leis de trânsito.

Cobrança

Como a batida ocorreu em Goiás, o casal buscou informações em Goiânia. Marcos enviou e-mail e telegramas a três delegacias, mas não teve notícias de inquérito, nem mesmo na 5ª DP, onde o boletim de ocorrência do acidente foi lavrado. Em 1º de junho, o casal entrou em contato com a delegacia de Guapó, distrito onde fica Abadia de Goiás.

Em Guapó, Marcos e Vyviane foram atendidos pelo delegado Davi Freire Rezende, que estava no posto havia um mês. Ele informou aos dois que não havia ali inquérito sobre o caso. “Perdi os meus dois filhos e era como se nada tivesse acontecido”, indigna-se Vyviane, sem conter o choro. Formada em letras, ela é íntima das palavras e de seus significados. Mas assim, como ainda não encontrou sentido para sua vida sem os filhos, também não conseguiu achar um termo que defina sua condição depois de 17 de dezembro: “Quando perdemos os pais, ficamos órfãos, quem perde o marido, se torna viúva. Eu fui mãe. Não sou mais. Não sei o que sou.”

Depois do périplo na polícia, Marcos e Vyviane procuraram o Ministério Público de Goiás e chegaram ao promotor Marcelo Franco Assis Costa. No dia seguinte ao contato, em 13 de junho, Marcelo enviou ofício à delegacia de Guapó cobrando providências. Em 15 de junho, 181 após o acidente, o inquérito foi aberto.

No dia do desastre, não foi feito exame toxicológico, instrumento importante para esclarecer uma morte violenta. O laudo da perícia do acidente até hoje não foi concluído. No quebra-cabeças faltando peças para constatar os fatos e apontar culpados, o relato de testemunhas que viram o acidente é essencial. Um desses depoimentos é do engenheiro civil Eduardo Henrique Marquez. Ele contou que naquele dia tinha urgência em chegar a Goiânia, onde assistiria a um casamento. Por isso, dirigia seu Vectra em alta velocidade. Mesmo a 140km/h, ele foi ultrapassado pelo condutor da Saveiro que bateu no carro da família Campos Moraes.

Duas outras testemunhas, que seguiam 300 metros atrás do Idea de Marcos e Vyviane confirmaram a versão do casal. Eram policiais civis que perseguiam o Vectra de Eduardo, justamente porque ele dirigia em alta velocidade. O carro da polícia também foi deixado para trás pela Saveiro. O agente afirmou ter sido surpreendido com o automóvel em “altíssima velocidade”, “ultrapassando em lugar proibido”.

Os dois policiais tiveram papel decisivo até a chegada do resgate. Brigadista, João Ernesto Lara prestou os primeiros socorros à família. Massageou o coração de Marcos, com sete costelas e o esterno quebrados. Ele e o colega Florêncio Filho constataram a morte de Pedro, que tinha as pupilas dilatadas e opacas. As de João Marcos pararam de brilhar dois dias depois, no hospital. Durante a viagem, o pequeno tinha a seu lado um livro de Harry Potter. Mostraria ao avô que tinha aprendido a ler.

Cidadãos

Os pais de João e Pedro estão dispostos a enxugar as lágrimas, expor seu luto e contar, tantas vezes quanto for preciso, a história do acidente que massacrou os planos de sua família. Em abril, os quatro deveriam ter ido a Disney. Depois da tragédia, o casal foi indenizado com o dinheiro das passagens e da hospedagem. Marcos e Vyviane decidiram repisar a dor da perda porque não são mais pais, mas continuam cidadãos. “Não desejo a morte de quem tirou a vida dos meus filhos. Quero investigação. A negligência, em qualquer etapa do processo, pode nos privar de conhecer a justiça dos homens”, diz Marcos, que treme os lábios e as mãos quando fala das crianças.

Ocorrência policial

“Segundo testemunhas e vestígios encontrados no local do acidente, V1 (Saveiro preta) trafegava pela BR-060 no Km 179,9, sentido Jataí/Goiânia, quando inadvertidamente em um local de proibida ultrapassagem, faixa contínua, não respeitando um fluxo forte de veículos que trafegavam em ambos os sentidos, colidiu com V2 (o Idea da família Campos Moraes), que não conseguiu desviar de V1.”

Sem lembrança

O condutor da VW Saveiro preta que bateu frontalmente com o Fiat Idea onde viajava a família Campos Moraes é Fabrício Camargos Cunha Rodovalho, 28 anos. Engenheiro ambiental, no dia do acidente, ele viajava a Goiânia para encontrar os pais. Era o seu último dia antes de tirar férias da usina de álcool onde trabalhava. Fabrício passou 12 dias em coma e alegou, em 6 de julho, durante depoimento na delegacia de Guapó, que não se lembrava das circunstâncias do acidente, mas afirmou que dirigia a 110km/h e não tinha pressa em chegar à capital goiana. Por meio de seu advogado, Divino Antônio, ele se negou a dar entrevista. 

Mortes recorrentes

Sobre a demora para o início da investigação, o delegado Davi Rezende afirma que, antes de ser procurado pelo casal, não tinha conhecimento do registro do acidente: “É uma situação complicada. Aqui, todos os dias, morre alguém na rodovia.” Tão logo recebeu o ofício do Ministério Público, Davi abriu o inquérito. Para concluí-lo, aguarda laudo da Polícia Técnico-Científica de Goiânia, pedido em 21 de junho. O MP vai denunciar Fabrício por homicídio, mas ainda analisa se houve dolo eventual, quando alguém, mesmo sem intenção de matar, assume os riscos ao agir com grande imprudência. Nesse caso, a pena varia de seis a 12 anos de prisão. “A depender do excesso de velocidade, das condições do motorista e do local do acidente, há sim a possibilidade de homicídio doloso”, afirma o promotor Marcelo Franco Assis Costa. (LT)

 

Laudo de batida de carro que matou os dois irmãos, João e Pedro,  demora 7 meses para ficar pronto
 
Foi preciso um casal em luto pela morte de seus dois filhos arregaçar a dor lancinante pela perda das crianças para fazer mover a investigação capaz de esclarecer as causas do desastre, apontar culpados e determinar punição para a tragédia de carro que massacrou os sonhos da família de Vyviane e Marcos Campos Moraes. Um laudo considerado fundamental para o desfecho das apurações sobre o acidente de trânsito que matou os irmãos Pedro Lucas, 3 anos, e João Marcos, 7, e deixou seus pais gravemente feridos finalmente ficará pronto hoje, sete meses e meio depois do acidente. O caso, contado em reportagem do Correio no último domingo, provocou a reação indignada de pessoas que se colocaram no lugar do bancário Marcos, 42 anos, e da professora Vyviane, 35. Desde 17 de dezembro, eles buscam razões para continuar a viver. A maior delas é fazer justiça em homenagem a seus meninos.
 
O documento que tem previsão de ser anexado ao inquérito sobre a morte das crianças é a perícia do Instituto de Criminalística de Goiás. O laudo, pendente há sete meses, apontará detalhes sobre as circunstâncias da tragédia ocorrida no fim do ano passado. A ocorrência da Polícia Rodoviária Federal narra que uma Saveiro trafegava pela BR-060 no Km 179,9 “em local de proibida a ultrapassagem, faixa contínua, não respeitando um fluxo forte de veículos”, quando acertou frontalmente o Idea de Marcos e Vyviane. Testemunhas ouvidas pela Polícia contaram que o condutor da Saveiro dirigia em “altíssima velocidade” na hora do impacto.
 
Os depoimentos confirmam a versão do casal, que por volta das 19h30 daquele 17 de dezembro diz ter sido surpreendido na altura de Abadia de Goiás por um veículo na contramão, que ultrapassava uma carreta. Ao notar o perigo, Marcos não teve muito tempo. Deu luz alta duas vezes e jogou o carro para o acostamento. O motorista da Saveiro, o engenheiro ambiental Fabrício Camargos Cunha Rodovalho, 28 anos, teve a mesma reação. Os dois carros chocaram-se violentamente.
 
Marcos desfaleceu com a batida. Vyviane ficou acordada. Sem conseguir se mexer porque estava muito machucada, pôde ouvir os gritos do filho mais velho, que tentava se soltar do cinto de segurança. Não ouviu a voz do caçula: “Eu sabia que Pedro estava morto”. Pediu a Deus com todas as forças para que o mais velho resistisse. João Marcos foi socorrido, teve os pulmões aspirados por um brigadista, chegou a ser internado. Mas morreu dois dias depois na mesma UTI onde os pais estavam internados. Marcos e Vyviane não tiveram a chance de velar os filhos, pois corriam o risco de morrer. Vyviane pediu para os meninos serem enterrados com as roupas novas que usariam na formatura da irmã dela, em Santa Fé do Sul (GO), da qual eles deveriam ter participado se não tivessem cruzado com a Saveiro. “Fomos internados em choque e nunca mais vi meus filhos. É a dor maior do mundo”, desabafa a mãe.
 
Peregrinação
 
Marcos e Vyviane levaram meses até reunir o mínimo de estrutura física e emocional para buscar os motivos do desastre que lhes roubou o sentido da vida. Em 1º de junho, o casal foi procurar informações sobre o andamento do inquérito e descobriu que não havia investigação em curso. O casal iniciou uma peregrinação por delegacias de Goiás até descobrir que a apuração era de responsabilidade da polícia de Guapó, município onde fica o distrito de Abadia de Goiás. Mas também lá não havia nenhum registro. Os dois acionaram o Ministério Público de Goiás e o promotor de Justiça Marcelo Franco Assis Costa cobrou providências. Ele enviou ofício em 12 de junho para a delegacia de Guapó e, dois dias depois, o processo finalmente foi aberto.
 
Desde então, oito testemunhas foram ouvidas, e documentos como a ocorrência da Polícia Rodoviária Federal apontando imprudência e desrespeito às leis de trânsito foram anexados ao inquérito. Mas ainda falta a perícia do Instituto de Criminalística da Polícia Técnico Científica de Goiânia. Com base nas marcas de pneus que ficaram na pista e no velocímetro dos carros acidentados, o laudo deve apontar, por exemplo, a velocidade dos veículos. O exame foi feito no dia do acidente, mas sete meses depois ainda não foi entregue. “Temos uma estrutura precária. Há uma sobrecarga de serviço. Temos mil laudos pendentes de croqui, mas demos prioridade a esse caso, até porque houve um pedido do Ministério Público”, disse o coordenador da Divisão de Perícias Externas do Instituto de Criminatística de Goiás, Jair Alves da Silva. Ele afirmou ao Correio que hoje o documento em fase de revisão estará pronto para ser entregue à Polícia e ao Ministério Público.
 
O promotor de Justiça do Ministério Público de Goiás, Marcelo Franco Assis Costa, disse que apresentará a denúncia contra Fabrício Rodovalho imediatamente depois de receber o inquérito da Polícia Civil. O delegado responsável pelas investigações, Davi Freire Rezende, entrou em férias ontem. Mas o delegado substituto Anderson Araújo Pelagio garantiu que a investigação será concluída em breve. “Se for necessário, eu mesmo relatarei o caso. Mas ele será concluído, imagino, ainda nesta semana”, afirmou o delegado. Por meio de seu advogado, Fabrício disse que não vai dar entrevistas.
 
Prazo encurtado
 
O promotor de Justiça tem, legalmente, 10 dias para oferecer a denúncia depois de receber o inquérito. Mas o representante do Ministério Público nesse caso vai encurtar o prazo e pode oferecer a denúncia ainda esta semana. Ele deve acusar o motorista da Saveiro de crime com dolo eventual — quando a pessoa, mesmo não tendo intenção de matar, assume o risco.

Fonte: Correio Brasiliense

Marcos e Vyviane ficaram gravemente feridos com a colisão. Hoje, lutam para recuperar a condição física, dar sentido aos dias e dormir à noite

Marcos e Vyviane com os filhos João e Pedro, que morreram em colisão na BR-060

Uma ultrapassagem arriscada e proibida na BR-060, km 179, zona rural de Abadia de Goiás, espatifou o carro da família Campos Moraes. Tirou a vida das duas crianças, João Marcos Campos Moraes, 7 anose Pedro Lucas Campos Moraes, 3 anos, feriu gravemente Marcos Campos Moraes, 42 anos, e Vyviane Marques Arantes Campos Moraes, 35, e dilacerou a alma do casal.

“Segundo testemunhas e vestígios encontrados no local do acidente, V1 (Saveiro preta) trafegava pela BR-060 no Km 179,9, sentido Jataí/Goiânia, quando inadvertidamente em um local de proibida ultrapassagem, faixa contínua, não respeitando um fluxo forte de veículos que trafegavam em ambos os sentidos, colidiu com V2 (o Idea da família Campos Moraes), que não conseguiu desviar de V1.”

O condutor da VW Saveiro preta que bateu frontalmente com o Fiat Idea onde viajava a família Campos Moraes é Fabrício Camargos Cunha Rodovalho, 28 anos. Engenheiro ambiental, no dia do acidente, ele viajava a Goiânia para encontrar os pais. Era o seu último dia antes de tirar férias da usina de álcool onde trabalhava.
 
O MP vai denunciar Fabrício por homicídio, mas ainda analisa se houve dolo eventual, quando alguém, mesmo sem intenção de matar, assume os riscos ao agir com grande imprudência. Nesse caso, a pena varia de seis a 12 anos de prisão. “A depender do excesso de velocidade, das condições do motorista e do local do acidente, há sim a possibilidade de homicídio doloso”, afirma o promotor Marcelo Franco Assis Costa. (LT)
 
 


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